Por Renato de Faria e Almeida Prado
Estou acompanhando, com crescente perplexidade, o impacto sistêmico que um único banco pode causar ao ecossistema financeiro nacional. A recente notícia de que os CDBs emitidos pelo Banco Master poderiam consumir até 42% do Fundo Garantidor de Créditos (Fgc) lança luz sobre uma prática que, embora tecnicamente legal, é eticamente questionável — e, do ponto de vista da NeoGovernança, profundamente desequilibrada.
Não se trata apenas de mais uma movimentação no tabuleiro das fusões e aquisições (neste caso, com o Brb). Trata-se da conversão do risco sistêmico em produto de prateleira. Uma estratégia de captação que se vale da blindagem do Fgc como argumento de venda, transferindo a responsabilidade e os custos do risco para o sistema como um todo.
Quando o risco vira produto e o sistema paga a conta
Esse comportamento ilustra perfeitamente o conceito clássico da tragédia dos comuns: quando agentes, agindo racionalmente em benefício próprio, esgotam recursos compartilhados, prejudicando a todos. O Fgc, um bem comum criado para garantir a estabilidade do sistema e proteger pequenos investidores, está sendo apropriado de maneira oportunista por algumas instituições, transformando-se em ferramenta de alavancagem e marketing.
Nesse cenário, o fundo deixa de cumprir sua função de proteção e passa a funcionar como um incentivo perverso à imprudência. O resultado é o esgotamento da confiança coletiva e o aumento exponencial do risco moral — exatamente o tipo de distorção que a NeoGovernança se propõe a corrigir.
Governança ou oportunismo regulado?
O Fgc, criado para proteger o pequeno investidor em caso de colapsos pontuais, virou escudo para a prática de alavancagem agressiva e desprovida de responsabilidade sistêmica. Ao pagar taxas muito acima do Cdi — com promessas lastreadas na proteção do Fgc —, instituições menores criam uma falsa sensação de segurança. Não há transparência sobre os reais riscos envolvidos, nem clareza sobre os limites éticos dessa prática.
Estamos, portanto, diante de uma crise silenciosa de governança do sistema de proteção. O que deveria ser um mecanismo de última instância, torna-se parte central do modelo de negócios de algumas instituições.
Progresso econômico sem responsabilidade é retrocesso
A NeoGovernança nos convida a analisar esse fenômeno a partir de seus três eixos:
-
Progresso Econômico: sim, há crescimento na captação, mas é um progresso frágil, alavancado artificialmente e dissociado de inovação sustentável. A economia que se baseia na distorção da segurança institucional corre o risco de implodir por dentro.
-
Conexão Humana: onde está o compromisso com o investidor comum, que compra um Cdb sem entender os riscos envolvidos? Há uma quebra na confiança, um desrespeito à assimetria de informação, e uma ausência de empatia no centro das decisões.
-
Harmonia com a Natureza dos sistemas: toda estrutura viva, incluindo o sistema financeiro, depende de equilíbrio e resiliência. A captura excessiva dos recursos do Fgc ameaça a integridade do ecossistema bancário — um desequilíbrio que pode provocar efeitos dominó em momentos de estresse.
Precisamos de um giroscópio, não de uma roleta
Na Era do Caos, a governança precisa sair do papel de reguladora passiva para assumir uma função ativa e antecipadora. O uso oportunista do Fgc deveria ser reprimido não apenas com novas normas, mas com um novo modelo de análise de risco, que incorpore elementos éticos, de transparência e impacto coletivo.
É aqui que entra a NeoGovernança: um modelo que equilibra lucro, legado e limites, transformando a lógica da proteção em instrumento de aprendizado e evolução — não em blindagem para práticas imprudentes.
Quando o risco vira produto, quem paga a conta é o sistema inteiro. E isso não é apenas injusto. É insustentável.
Renato de Faria e Almeida Prado, conselheiro e estrategista especializado em liderança corporativa, inovação e os três pilares da NeoGovernança: progresso econômico, conexão humana e harmonia com a natureza. Presidente da Comissão do Conselho Consultivo do Futuro da Board Academy, que criou a série para explorar os desafios e oportunidades da governança em tempos de transformação.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn.
Ver no LinkedIn